domingo, 8 de novembro de 2009

Sério, ma non troppo



Cordiais Saudações aos diletos companheiros da Taberna,
Beh, hoje o tópico não terá um tema específico, mas aliás, quando é que tem. né?

Essa semana estava observando as estatísticas aqui do blog e vendo que a quantidade de posts diminui consideravelmente de março a setembro e volta a subir a partir de outubro. Isso não quer dizer que eu tenha mais tempo de outubro em diante, mas sim que estou tão cansado ou contrariado que resolvi ligar o botão do F***-se.

E esse mês de outubro e novembro já estão bem bagunçadinhos para o meu gosto. Já perdi a conta da quantidade de concertos esse mês. A propósito, para aqueles que gostem de música de concerto estarei nos dia 24 e 27 de novembro em concerto na Sala Cecília Meireles, dia 24 com o Oratório de Natal de Bach e dia 27 com a Nona Sinfonia de Beethoven e depois disso devo ir direto para o conserto...trocadilho péssimo!! Há um recital solo marcado para essa próxima semana, mas não confirmo com ninguém porque quem me contratou está indeciso com a data, como se fosse fácil preparar um recital e depois ficar mudando de dia... as pessoas têm o direito de ser enroladas, mas não de enrolar a vida dos outros, mas enfim... c'est la vie.

Falando nisso, andei notando uma coisa ultimamente, que virou até assunto de conversa de MSN com a Lanynha da Varanda e confreira de nossa Taberna e também foi assunto com um amigo. Quando se se atua no meio artístico às vezes as coisas acontecem tão rápido que você não percebe. Uma dessas é quando você passa a ser artista... é como se se cruzasse uma sutil linha que te transformasse numa das pessoas dessa classe e isso tem vários desdobramentos, um é que você mesmo não se sente ainda um artista e acaba cometendo gafes gravíssimas. Uma vez, antes de um concerto, eu queria um lugar para me vestir e depois de ficar um tempão encolhido no canto do Hall da Sala de concertos vi a diretora passando e resolvi perguntar muito constrangido: "Err...a Senhora poderia me conseguir um cantinho para eu me trocar? Pode ser um banheiro, um quartinho, qualquer coisa..." E a diretora me olhou com um olhar indescritível, um misto de pena e de ira e disse: "Meu filho, você é o artísta!! Olhe lá seu camarim, lá!!". Se é assim, então tá, né!!

Mas outro desdobramento, também sério, é a imagem que as pessoas constroem de você. Por algum motivo as pessoas deixam de te encarar como um Ser Humano normal, e te colocam num nível totalmente imerecido. E esse patamar que imerecidamente se alça vêm acompanhado de exigências, as pessoas querem que você seja da forma como elas te imaginam, não compreendem se há um dia que você acordou de mau humor, se está com dor de cabeça, ou se acordou meio deprimido e não quer ver ninguém, não compreendem que você nem sempre tem tempo para dar a atenção devida e essa sim merecida. Mas isso nem é o cerne da questão. Elas querem que você seja aquela pessoa séria e concentrada que vêem em cima do palco. Então às vezes coisas patéticas acontecem, como pedirem desculpas quando falam palavrão perto de você ou então quando você fala um palavrão ou faz uma piada olharem esbugalhados como se fosse um sinal dos tempos. Aliás, eu passo isso em todos os lugares, como se de repente eu tivesse me tornado um avatar inatingível e que não pudesse as vezes enlouquecer.

Mais uma historinha, o Orkut é uma forma interessante de contato, mas também é perigoso pelas mesmas razões expostas acima. Alguém outro dia me ofendeu gravemente via scrap, se referindo a questões nazistas e solenemente resolvi mandá-lo para aquele lugar, xingando todas as gerações da família dele. Algum tempo depois vejo críticas em algumas comunidades, dessa mesma pessoa, dizendo que não esperava isso de mim, uma pessoa pública, um artista. E ainda pedem para eu recorrer ao meu espírito cristão...que diga-se de passagem, não tenho...mas vamos lá né...

Disso tudo dá para retirar uma conclusão, nossa época vive um período de forte comprometimento psicológico, as pessoas se sentem sozinhas e carentes de contato e como vivemos na era da falta de privacidade elas querem cada vez mais interagir com os aspectos mais íntimos das nossas vidas, mas de forma ilusória e virtual. E quando destruímos isso, mostrando que temos defeitos e somos normais, toda essa ilusão se desfaz. Noto que às vezes várias pessoas se aborrecem comigo por acharem que eu sou sério 24/7 e quando elas vêem que eu sou brincalhão também, não processam o fato e se sentem ofendidas. E há vários fatores responsável por isso, o tipo de arte que exerço que está envolvida em uma egrégora de falsa sofisticação, o fato de eu ter um sotaque diferente das pessoas e de não ter gírias o que dá um ar de mais mistério ainda...enfim...mas não é culpa minha...no todo.



Confrades, eu juro, sempre tento escrever poucas coisas, mas não consigo, quando vejo o texto está enorme, perdoem-me a prolixidade.

Há novidades vindo por ai, surgiram como idéia de uma postagem, mas acho que vai render mais do que isso. Deixo com vocês um excerto do Oratório de Natal de Bach que farei no dia 24/11. E ilustrando essa postagem algumas das aquarelas do moleskine dessa semana.



Ósculos e Amplexos

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O Brasil que os Europeus encontraram - PODCAST


Salve Amigos da Taverna,
Testando uma nova forma de comunicação, idéia do Jorge, amigo e professor de Japonês.
Antes de tudo peço que me perdoem o sotaque de estrangeiro.
Vamos lá!! É só clicar aí e escutar.




Para quem não consegue visualizar o Player segue o link para Download.


Amplexum

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O mais novo surto...


Cordiais Saudações aos diletos confrades da taberna,
com augúrio de que estejais bem!!

Pois eis que me surge um novo surto. Em geral os surtos chegam sempre sorrateiros e desinteressados, como se não quisessem nada e quando vejo tomaram totalmente o meu imo. Então deixe estar, que mais um surto se fez surgir. Do nada comecei a me questionar sobre as línguas indígenas e quando vi estava cercado de gramáticas de Tupi Antigo e Guarani e simplesmente apaixonado pela obra de José de Alencar e de Gonçalves Dias.

A 'cousa' anda tão forte que agora sempre que vou dormir começo a sonhar em Tupi Antigo. Ainda não sei bem se se trata de um surto lingüístico ou de um surto de brasilianidade, carácter inaudito desde então. Porque toda a manhã, faço questão de ser acordado com os acordes do trenzinho do Caipira e vou ao banho ao som das Bachianas Brasileiras. Detalhe interessante, a genialidade de Villa-Lobos incomensurável se mostra em trechos bastante obscuros ao ouvinte ocasional e distraído. Para exemplificarmos, Villa-Lobos era um compositor versátil e pragmático, tudo virara música em suas mãos, absolutamente tudo, como pode ser visto no aparentemente sem sentido lá# do trombone que aparece nos Chôros N.7, mas o que acontece, Villa-Lobos morava em Santa Tereza e nunca, em hipótese alguma, ele corrigia sua partitura, ele ouvira simplesmente um bondinho freiando perto de sua janela e lá está aquele momento, que provavelmente fazia parte de seu cotidiano, eternizado em sua música.

Bom, mas voltando aos sonhos em Tupi Antigo, agora passo a ser assombrado por grandes Ygarusu de onde saem várias Ygara repletas de Peró, que baldamente tentam estabelecer contato com os Abá que estão sykyîé na 'y-kûá. Ou para melhor dizer, sou assombrado por grandes Naus de onde saem canoas repletas de portuguêses, que baldamente tentam estabelecer contato com os índios que estão amedrontrados na enseada.



Aliás, o idioma Tupi é tão forte e vivo que depois de alguns minutos estudando é impossível não se sentir também um índio das costas brasileiras do período colonial e é impossível não se imaginar as matas e a coragem dos guerreiros de Nossa Terra.

Falando em Guerreiro, impossível também é não lembrar de Gonçalves Dias, que junto de José de Alencar formam o altar dos Românticos indianistas do Brasil. Durante a adolescência não conseguia, reconheço, compreender bem o seu poema, porque sempre empacava no título I Juca-Pirama, mas que diabos seria isso, porque o poema começaria, ignorância minha, com o artigo plural italiano, mas é claro que hoje ao esbarrar não coincidentemente com o título tudo me pareceu tão claro: Mas como é óbvio, I Juca-Pirama, "O que irá morrer"!!! que podemos agora com mais segurança chamar de I-Juká-Pyr-ama. Podemos também chamar o próprio Gonçalves Dias de Guerreiro, tendo sua vida terminado de forma trágica e triste. Ele adoecera e fora à Europa em busca de cura à sua doença, mas não a obtendo retorna ao Brasil no Ygarusu, ops, digo, navio, Ville Bollogne, que ao chegar às costas brasileiras começa a naufragar, salvando-se todos, exceto Gonçalves Dias que permanece esquecido agonizante em seu leito.



Tal surto indianista me lembra novamente o Villa, em 2006 gravei em DVD sua série de Chôros para o mercado europeu e um desses choros permaneceu em minha mente, os Chôros N.3, no qual Villa-Lobos tentou reproduzir o som da música indígena.

E é justamente com esse chôro que termino minha postagem.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Tempus fugit e o Triunfo do Tempo


Salve, meus caros confrades da Taberna,
Fazendo postagem dialógica com a postagem da Lanyinha da Varanda, falaremos hoje, também sobre o tempo, ou melhor, sobre o desaparecimento dele.

Eis que desde os tempos imemoriáveis debalde todos tentam ter mais tempo, mas ao contrário muitos os desperdiçam. Chegou um ponto que esse mês queria muito comprar algumas horinhas a mais dos muitos desocupados que vagam por esse planeta.

Essa foi uma semana pesadíssima, apresentando comunicação sobre o Egito Antigo, me vi convidado, a no meio da comunicação, traduzir as estelas egípcias que eu trabalhara para o alemão, simultâneamente, para algumas professoras alemãs que se encontravam no evento. E assim, foi feito, logo depois fui dar as minhas tradicionais aulas de inglês, italiano e francês. Terminei o dia com a mente em frangalhos que estava até conversando com seres que em geral não mantém diálogos. Mas enfim...c'est la vie et tempus fugit.

Falando no tempo que voa, e que voa zombeteiro, vale a pena nos debruçarmos sobre uma obra de Händel, chamado, O triunfo do tempo e do desengano. E me perguntareis se ando ouvindo muito Händel, e eis que vos responderei, non troppo.

Mas essa peça vale a pena, não só por ela mesma, mas também por toda a plástica do vídeo. Aliás, não há nada mais doido e mais corrido do que uma gravação de música de concerto, músicos chegando atrasados, correndo, ninguém sabendo em que página se encontra, posto que as gravações raramente são feitas de forma linear e todos nós podendo extravasar a tensão da dificuldade das peças, coisas impossível nos concertos.

Falando nisso, o tempo me exige cada vez mais e continua triunfando debochado sobre mim. Tenho quatro concertos para fazer, em um simples intervalo de dois meses.

Vamos então à ária.



Triunfo del Tempo e del Disinganno.

Bellezza
Voglio Tempo per risolvere...

Tempo
Teco è il Tempo...

Disinganno
ed il Consiglio...

Piacere
ma il Consiglio è il tuo dolor.

Tempo
Pria ch'io ti converto in polvere,
segui il ben...

Disinganno
fuggi il periglio...

Piacere
tempo avrà per cangiar cor.

Bellezza
Presso la reggia ove il Piacer risiede
giace vasto giardino.
Ivi torbido rio si muove appena
per aura densa e grave;
dimmi, quel rio, d'onde deriva?

Disinganno
Ascolta.
Deriva da quei pianti
che sparge il mondo insano,
e formano quell'aura
gravi e densi sospir di folli amanti.


O Triunfo do Tempo e do Desengano.
Beleza

Quero tempo para resolver...


Tempo

Teu é o tempo...


Desengano

E o conselho...


Prazer

Mas o conselho é a tua dor


Tempo

Antes que eu te converta em pó,
Segue o bem...

Desengano

Foge ao perigo...


Prazer
Ainda terá tempo para mudar o coração.

Beleza

Junto ao palácio onde o Prazer reside

jaz vasto jardim
Onde apenas um tórrido rio se move

em ar denso e pesado;

Dize-me, aquele rio, de onde provém?


Desengano

Escuta.

Provém daquele pranto

Que lança o mundo insano,
e formam aquela egrégora pesada

e dos densos suspiros dos loucos amantes.


[Tradução Nossa]

Ósculos e Amplexos,
Leonardo Perin Vichi

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Beethoven e a reconciliação com o Mundo

Boa Tarde, meus caros e nobres confrades de Taverna,

Essa semana, apesar de tudo, foi uma semana formidável. Entre grandes decepções pude ter enormes alegrias. E uma dela fora o início dos Ensaios da Nona Sinfonia de Ludwig van Beethoven, ou como a tradução não negaria, Luís dos Campos da Paz. E não poderia ser diferente o seu Nome.

Aliás, desde cedo, junto com Bach, sempre tive Beethoven na mais alta conta. Tendo visto e ouvido muitos criticarem sua arte, sempre permaneci calado nesse tangente, mas na verdade, na mais singela adoração e prostração perante sua majestade artística. E há muito da própria vida de Beethoven que eu aprecio. Desde seu temperamento, sua coragem ao enfrentar a surdez, mais do que um golpe, uma ferramenta para a manifestação de seu gênio, pois como ele mesmo viria a dizer. Deus calou seus ouvidos físicos para que ele O escutasse com mais atenção, aliás, com exclusividade.

Mas compartilho com Beethoven suas opiniões no tangente aos seres humanos. Ó meus caros, como são cruéis! E a cada dia se tornam muito piores, ocultam por trás de rostos sorridentes e de fingida amizade somente maus sentimentos, hipocrisia e falsidade. o Egoísmo e a Ganância é a parte preponderante de suas almas e a composição básica de seus espíritos. Mas como Beethoven afirmara, não é motivo de nos deixarmos derrubar pela mediocridade dos seres ignóbeis, sempre é tempo de se reconciliar com o Mundo.

E exatamente isso é a Nona Sinfonia, uma grande Reconciliação com o mundo, a minha afinidade com a Obra e com os sentimentos nela impressos geram em mim, pari passu, um misto de alegria e de tristeza e é justamente o Pathós que impregna a obra que gera esse misto em meu imo.

Vale a pena a tradução do excelente poema de Schiller que dá corpo à Reconciliação Beethoviana.

Mas antes de termos a tradução, segue o seu testamento, para que entendais o que passava pela mente de Beethoven em seus últimos dias, testamento, aliás, que completa seus quase 200 anos no próximo dia 6. Beethoven o escreveu na cidade de Heiligenstadt ao perceber que seu mal não tinha cura, quando então o compositor afastou-se progressivamente do convívio social, que já não era dos mais agradáveis, tornando-se mais e mais solitário, introspectivo e fora dos padrões sociais vigentes.

„Ó homens que me tendes em conta de rancoroso, insociável e misantrôpo, como vos enganais. Não conheceis as secretas razões que me forçam a parecer deste modo. Meu coração e meu ânimo sentiam-se desde a infância inclinados para o terno sentimento de carinho e sempre estive disposto a realizar generosas ações; porém considerai que, de seis anos a esta parte, vivo sujeito a triste enfermidade, agravada pela ignorância dos médicos. Iludido constantemente, na esperança de uma melhora, fui forçado a enfrentar a realidade da rebeldia desse mal, cuja cura, se não for de todo impossível, durará anos talvez!


Nascido com um temperamento vivo e ardente, sensível mesmo às diversões da sociedade, vi-me obrigado a isolar-me em uma vida solitária. Por vezes, quis colocar-me acima de tudo, mas fui então duramente repelido, ao renovar a triste experiência da minha surdez!

Como confessar esse defeito de um sentido que devia ser, em mim, mais perfeito que nos outros, de um sentido que, em tempos atrás, foi tõa perfeito como poucos homens dedicados à mesma arte que eu possuíam! Não me era contudo possível dizer aos homens: "Falai mais alto, gritai, pois eu estou surdo". Perdoai-me se me vêdes afastar-me de vós! Minha desgraça é duplamente penosa, pois além do mais faz com que eu seja mal julgado. Para mim, já não há encanto na reunião dos homens, nem nas palestras elevadas, nem nos desabafos íntimos. Só a mais estrita necessidade me arrasta à sociedade. Devo viver como um exilado. Se me acerco de um grupo, sinto-me preso de uma pungente angústia, pelo receio que descubram meu triste estado. E assim vivi este meio ano em que passei no campo. Mas que humilhação quando ao meu lado alguém percebia o som longínquo de uma flauta e eu nada ouvia! Ou escutava o canto de um pastor e eu nada escutava! Esses incidentes levaram-me quase ao desespero e pouco faltou para que, por minhas próprias mãos, eu pusesse fim à minha existência. Só a arte me amparou! Pareceu-me impossível deixar o mundo antes de haver produzido tudo o que eu sentia me haver sido confiado, e assim prolonguei esta vida infeliz. Paciência é só o que aspiro até que as parcas inclementes cortem o fio de minha triste vida.

Melhorarei, talvez, e talvez não! Mas terei coragem. Na minha idade, já obrigado a filosofar, não é fácil, e mais penoso ainda se torna para o artista. Meu Deus, sobre mim deita teu olhar! Ó homens! Se vos cair isto um dia debaixo dos olhos, vereis que me julgaste mal! O infeliz se consola quando encontra uma desgraça igual à sua. Tudo fiz para merecer um lugar entre os artistas e entre os homens de bem. Peço-vos, meus irmãos (Karl e Johann) assim que eu fechar os olhos, se o professor Schimith ainda for vivo, fazer-lhe em meu nome o pedido de descrever minha moléstia e juntai a isto que aqui escrevo para que o mundo, depois de minha morte, se reconcilie comigo. Declaro-vos ambos hedeiros de minha pequena fortuna. Reparti-a honestamente e ajudai-vos um ao outro. O que contra mim fizestes, há muito, bem sabeis, já vos perdoei. A ti, Karl, agradeço as provas que me deeste ultimamente. Meu desejo é que seja a tua vida menos dura que a minha.

Recomendai a vossos filhos a virtude. Só ela poderá dar a felicidade, não o dinheito, digo-vos por experiência própria.
Só a virtude me levantou de minha miséria. Só a ela e à minha arte devo não tere terminado em suicídio os meus pobres dias.
Adeus e conservai-me vossa amizade. Minha gratidão a todos os meus amigos. Sentir-me-ei feliz debaixo da terra se ainda vos puder valer.

Recebo com felicidade a morte. Se era vier antes que realize tudo o que me concede minha capacidade artística, apesar do meu destino, virá cedo demais e eu a desejaria mais tarde. Entretanto, sentir-me-ei contente pois ela me libertará de um tormento sem fim. Venha quando quiser, e eu corajosamente a enfrentarei. Adeus e não vos esqueçais inteiramente de mim na eternidade. Bem o mereço de vós, pois muitas vezes, em vida, preocupei-me convosco, procurando dar-vos a felicidade.
Sêde felizes!

Helligenstadt, 6 de outubro de 1812.

(a) Ludwig Van Beethoven“

Agora então vamos à tradução nossa do poema da Nona Sinfonia.



Ó amigos, não com esses tristes sons!
Entoemos, no entanto, sons agradáveis e plenos de alegria.
Alegria! Alegria!

Alegria, a mais bela centelha divina
Filha do Paraíso
Nós invadimos, ébrios de ardor,
teu santuário celeste!
Tua mágica reúne novamente
àqueles que foram separados pelas fronteiras do mundo.
Todos os homens se tornarão irmãos,
onde tua suave asa alcançar.

Aquele a quem a sorte foi benévola
de permitir que fosse amigo de alguém verdadeiramente amigo
E que foi correspondido por uma mulher virtuosa,
Deixai que una seu júbilo ao nosso!
Sim, deixai também aquele que tem a alegria
de chamar de sua uma outra Alma no mundo.
Mas todo aquele que não puder dizer o mesmo
que seja apartado choroso de nossa companhia.

Todos os seres bebem a Alegria
dos seios da Natureza.
Todos os bons e todos os maus
seguem o teu caminho de rosas.
Pois beijos e vinhos ela ofereceu
Àqueles que permaneceram amigos mesmo após a morte
Mesmo o verme recebe a alegria da Vida
E perante Deus é que habitam os Querubins!

Ó Jubilosos, assim como os Astros percorrem
seu esplêndido curso através dos Céus,
percorreis, irmãos, vosso caminho.
Alegres como um herói que segue para a Vitória.

Abraçai-vos uns aos outros, Ó Milhões!
Que este beijo alcance todo o Mundo!
Irmãos, acima do zimbório celeste
Certamente habita um pai amoroso.
E vós, milhões, não vos prostrais?
Não sentís o Criador, Ó Mundo?
Pois buscai-o acima do céu estrelado!
Acima das estrelas certamente Ele habita!

Traduções do testamento e do poema: Leonardo Perin Vichi



Isso é tudo pessoal!!
Ósculos e Amplexos,
Leonardo Perin Vichi

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Repiangerò la sorte mia...

Saudações companheiros da Taberna,

Hoje, nessa linda e calma manhã de segunda-feira, depois do pior domingo que eu poderia ter tido, estava a revirar alguns papéis e encontrei algumas traduções antigas minhas. Um, de um poema de um médico-poeta alemão do século XIX, Aloys Jeitteles, poema que fora usado por Beethoven em seu cíclo de Canções, e outro, um pequeno trecho da Ópera Cleópatra de Händel. Seguem os vídeos respectivos também, o Beethoven na voz fantástica do Fritz Wunderlich e o Händel na voz da belíssima Magdalena Kozèna e também alguns dos meus rabiscos da semana.

Ei-los



An die entfernte Geliebte

Auf dem Hügel sitz ich spähend
In das blaue Nebelland,
Nach den fernen Triften sehend,
Wo ich dich, Geliebte, fand.

Weit bin ich von dir geschieden,
Trennend liegen Berg und Tal
Zwischen uns und unserm Frieden,
Unserm Glück und unsrer Qual.

Ach, den Blick kannst du nicht sehen,
Der zu dir so glühend eilt,
Und die Seufzer, sie verwehen
In dem Raume, der uns teilt

Will denn nichts mehr zu dir dringen,
Nichts der Liebe Bote sein?
Singen will ich, Lieder singen,
Die dir klagen meine Pein!

Denn vor Liebesklang entweichet
Jeder Raum und jede Zeit,
Und ein liebend Herz erreichet
Was ein liebend Herz geweiht!



À amada distante.

Sobre o vale eu sento a contemplar,
no azul, na terra nublada,
os longínquos pastos a observar,
Onde eu a ti encontrei, Ó Amada.

A distancia a mim de ti separa,
estão montanhas e vales
entre nós e nossa paz, e nos aparta
de nossa Felicidade e nossos males.

Ah, o olhar, talvez não possas notar,
que até ti ardentemente se lançara,
e os suspiros a ressoar,
No espaço que nos separa.

Nada mais que eu te alcance fará?
Nada será mensageiro do amor?
Cantar quero eu, canções quero cantar
Que queixem a ti a minha dor.

Pois antes um som de amor escapou,
Por todos os cantos, por todo o momento,
E um coração apaixonado alcançou,
O coração ao qual fez seu juramento.

Piangerò la sorte mia

Piangerò la sorte mia,
sì crudele e tanto ria
finchè vita in petto avrò.
Ma poi morta, d’ogni intorno
il tiranno notte e giorno,
fatta spettro, agiterò.




Chorarei a sorte minha

Chorarei a sorte minha
Sim cruel e tão impía,
Pelo tempo que vida em meu peito terei
Mas depois de morta, em qualquer canto,
o tirano, dia e noite, portanto,
feita assombração, pertubarei.



Isso é tudo pessoal,
Ósculos e Amplexos,
Leonardo Perin Vichi

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Dr. Jekyll and Mr. Hyde...no Moleskine

O Ano vai acabando e meu moleskine também...


Estive bastante sumido da taverna e esse ano foi um ano bastante movimentado e atribulado. Ano em que tive certeza que teria sido melhor não ter conhecido algumas pessoas e que os ébrios monges do mediævo estavam certos quando diziam: „Verum est quo legitur, fronte capillata, sed plerumque sequitur occasio calvata.“, "Verdade é o que se lê, a bela cabeleira quando quer tomar, calva se mostra."

Mas como diria Schiller „Nicht dieser Töner“, "Afastai estes tristes sons". Este é o primeiro verso da Nona Sinfonia de Beethoven que será montado pela Cia. Bachiana Brasileira este ano e que estarei lá cantando e refletindo que Beethoven a compôs para se reconciliar com o mundo, este que na verdade fora tão perverso com ele.

Falando em Beethoven, falando em Carmina Burana, dos monges ébrios acima, falemos do que considero a maior confirmação da teoria Neo-Platônica Nietzschiana no que tange ao Dionisíaco e Apolínio, contida na Obra "O Nascimento da Tragédia." Contudo, esta confirmação que vos falo está totalmente representada na Obra de Robert Louis Stevenson, The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde. Mais conhecido no Brasil como "O Médico e o Monstro."


"Minha análise da alma, da psique humana, leva-me a crer que o ser humano não é verdadeiramente um, mas verdadeiramente dois. Um deles esforça-se para alcançar tudo que é nobre na vida. É o que chamamos de lado bom. O outro, quer expressar impulsos que prendam-no a obscuras relações animais com a terra. Esse é o que podemos chamar de mal. Ambos travam um eterno combate no íntimo da natureza humana, e contudo, estão atados um ao outro. E este elo provoca a repressão ao mau e remorsos no bom. Agora, se esses dois seres pudessem ser separados um do outro, quão livre o bom em nós poderia ser, que alturas poderia alcançar! E o assim chamado mal, uma vez liberto, buscaria sua própria realização, e deixaria de nos perturbar..."


Permitam-me discordar um pouco do Dr. Jekyll. Em minha humilde opinião, sou do pensamento que tanto o lado bom ou o lado mal possuem o mesmo objetivo, alcançar tudo o que é nobre na vida, mas usando caminhos diferentes para isso, contudo.

Para àqueles que não conhecem a história do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, um pequeno resumo.

A história pode ser, entretanto, resumida, por apenas uma questão:

O que aconteceria se o lado mau se disjungisse do lado bom? É exatamente por aí que a experiência de Dr. Jekyll se inicia. Ele se transforma em sua própria cobaia e dai nasce Mr. Hyde, o seu lado oculto, como seu nome em inglês denuncia. Pelo ponto de vista freudiano, poder-se-ia dizer seria como se o Ego simplesmente se desintegrasse, separando assim o Id do superego, o instinto e suas barreiras morais.

Aliás, casos assim podem ser facilmente encontrados na obra do teórico da Psicanálise Sándor Férenczi no tangente à sua teoría do Trauma e os fenômenos de desintegração psíquica.

Infelizmente, Stevenson não nos dá detalhes da Infância e Juventude de Dr. Jekyll, o que nos impede de levantar quaisquer hipóteses sobre a construção de sua personalidade. Todavia no próprio nome do personagem encontramos uma pista. Jekyll, ou I Kill, a mais instintiva e profunda manifestação do Id, que vista em situação de ameaça não pensa duas vezes em garantir a própria vida, no entanto, se isolado dos ditames morais e sociais impostos pelo superego, o que garantiria que esse ser disjungido não sairia matando, mesmo quando não estivesse em situações reais de perigo? Ainda discorrendo sobre a Teoria do Trauma de Férenczi, podemos tentar exemplificar o caso dos sobreviventes retornados de Guerra, que definitivamente nunca mais retornam à saúde mental que outrora gozavam e vêem-se muitas vezes aterrorizados com alucinações dos campos de batalha, como se estivessem a todo momento tentando se defender.

Na Obra de Stevenson, logo em sua primeira parte, encontramos um constrangido Dr. Jekyll vitimado pelas insinuações de Sir Carew, que mesmo sendo cidadão respeitável e membro do parlamento, insiste para que Dr. Jekyll os acompanhe até um prostíbulo e lhe empurra uma meretriz, dizendo que este também deve ser exposto à todas as experiências da vida. Nessa situação de constrangimento sem chance de defesa, vemos o arquétipo claro do traumatizado de Férenczi, que é a vítima a qual é negada a chance de defesa, o que agrava por fim o seu trauma.

Saindo um pouco das questões meramente especulativas em campo psicanalítico, posto que meus conhecimentos nessa área são parcos e frutos apenas de leituras de pequena e tímida bibliografia, passemos a outros assuntos.

Alguns livros me incomodam sobremaneira, principalmente obras mais caóticas, como as de Sartre, Dostoiévsky entre outros. Em geral, livros que tratam da ruína humana me perturbam. Todavia, a obra de Stevenson, me perturbou positivamente, me fascinando, e não me fazendo querer jogar o livro de lado, como em geral acontece com os autores supracitados. E ocorreu-me um outro fenômeno peculiar, o de ficar com as cenas gravadas na mente e só sossegar depois de as desenhar.


E assim foi feito. O resultado são essas ilustrações que fiz no meu moleskine e que estão ao longo do post.

Para os cinéfilos de Plantão, há a opção de assistir a versão de 1920, melhor em minha opinião, aqui. Detalhe para a excelente trilha sonora e para a excelente atuação de John Barrymore.

P.S.
Meu longo desaparecimento foi motivado, além da carga de atividades acadêmico-profissionais pesada, por um envenamento, acidental, por vapor de sulfato de prata, ácido sulfúrico, em uma experiência em laboratório, que me deixou um tempo meio fora do ar. Mas, exceto pelo fato de que corro o risco de adquirir permamentemente uma linda coloração azul ardósia, como o Fera do X-Men, por causa da quantidade de sais de prata que meu corpo absorveu, nada mais grave resta. Mas vejam, garanto a vocês que não estava tentando, assim como o Dr. Jekyll fez, separar meu lado bom do lado mau, apesar que assim como o Dr. Jekyll, o lado bom em geral não é tão bonzinho assim...rsrsrs.

Bom pessoal, por hoje é só,
Ósculos e Amplexos a todos!!